campinho de Areia na Mandaçaia: O Lendário Torneio da Ponkan do "Goleiro Acácio"

Na minha época de criança, por volta dos anos de 1991 a 1993, a vida no Acampamento da Mandaçaia tinha um sabor especial.
E quando o assunto era futebol e diversão, tinha um amigo que se destacava: o *Rubão*. Ele era um verdadeiro parceiro e, na organização de torneios e campeonatos curtos no nosso querido campinho de areia, demonstrava o talento de um verdadeiro profissional.
Esse espírito de liderança e o aprendizado para organizar as coisas vinham de família, um exemplo que ele trazia das viagens.
Por isso, ele sempre se sobressaía. Quem viveu na Mandaçaia naquela época com certeza vai se lembrar: o nosso campeonato era disputado dente por dente, e o prêmio principal era *ponkan*! O prêmio era ótimo, mas o melhor de tudo era a diversão garantida.
O Rubão, além de organizar tudo com muito carinho e vontade, também jogava. Ele era goleiro e se auto-intitulava o “Acácio”, que na época era goleiro da Seleção Brasileira (se não me falha a memória).
Lógico que ele jogava bem e defendia muito, mas o seu forte mesmo era a organização e o jeito justo de efetuar o sorteio dos times. Ele já tinha o seu próprio quadro formado e contava até com jogo de camisas na época!
O time do Rubão era bom, mas de vez em quando eles acabavam perdendo.
E era aí que o torneio ficava ainda melhor! Como ele era o organizador, quando o seu time saía da disputa, ele colocava o apito na boca e virava o árbitro da partida. Ele comandava o jogo com a mesma paixão com que jogava.
Olhando para trás, a gente percebe a verdadeira importância e a natureza da amizade legítima que nos unia. Naquela infância descalça, o futebol e o torneio eram apenas a desculpa que a gente usava para estarmos juntos.
A amizade verdadeira da nossa piazada tinha a força daquela terra roxa da Mandaçaia: era bruta, sincera e sem falsidade.
A gente brigava pela bola, disputava cada gomo de ponkan como se fosse um troféu de ouro, mas o respeito era sagrado.
Quando o jogo acabava ou o Rubão apitava o fim da partida, o que sobrava era a lealdade de irmãos que dividiam a lida e o carinho protetor que só quem cresceu em uma colônia da Florestal consegue entender.
Aprendemos ali, naquele terrão de areia, que um amigo de verdade vale mais do que qualquer riqueza.
Aqueles tempos foram fantásticos, cheios de amigos leais e muitas histórias para contar. Mas, como tudo na vida um dia passa, a nossa infância e a juventude também ficaram para trás.
Com o término do Acampamento da Mandaçaia, os amigos acabaram se espalhando, foram morar em bairros diferentes, arranjaram novos círculos, viraram adultos e seguiram suas vidas.
Fiquei muito feliz e emocionado nessa viagem ao passado, mas ela também me trouxe um choque de realidade. Percebi que alguns dos velhos amigos não estavam mais lá; o tempo passou e alguns acabaram nos deixando no meio do caminho.
Mas não foram só as ausências humanas que me doeram. Olhando para as nossas antigas paradas, percebi que as mudanças na natureza foram muito agressivas em poucos anos.
Vi clareiras na mata que antes eram floresta fechada, e o volume de água dos nossos rios e cachoeiras hoje está muito abaixo se compararmos com a nossa época.
Cheguei a uma conclusão definitiva: podemos, sim, contar a nossa história com alegria, orgulho e emoção. Mas nunca poderemos, de fato, retornar fisicamente àquele passado.
Se fizermos isso, vamos nos deparar com a destruição e a contaminação do meio ambiente que nós mesmos ajudamos a fazer. Infelizmente, de um jeito ou de outro, todos nós somos responsáveis pelo que restou.
Hoje, essas histórias vivem guardadas puras e intactas apenas na memória de quem teve o privilégio de vivenciar momentos tão únicos.
Naquele tempo, a gente não precisava de grandes patrocínios para ser feliz; sempre arranjávamos um meio de aproveitar ao máximo a estrutura, a amizade e a natureza linda que tínhamos na colônia.
Fica aqui a minha homenagem ao Rubão e a toda a piazada da Mandaçaia que dividia o campo, a vida e as ponkans comigo!

-Valdecir Bueno (Viagens, Sonhos e Fantasias)

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